Defender o
Irã – Derrotar a guerra EUA/Israel que ameaça a
Terceira Guerra Mundial!
A disparada dos preços do petróleo e do gás prepara o
terreno para uma crise econômica mundial

Consequências da greve noturna na refinaria de petróleo de Shahran, nos arredores de Teerã, em 8 de março. No dia seguinte, uma chuva negra assolou a cidade. (Foto: AFP)
O Irã claramente precisa de uma dissuasão nuclear
contra
|
Pela ação
operária contra a guerra e as deportações!
Rompa com os democratas e republicanos – Por um
partido operário revolucionário!
Atoleiro. Essa é a palavra que Donald Trump teme como a peste, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando em novembro. Com a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã em sua quarta semana, a Casa Branca e o Pentágono estão em pânico, buscando desesperadamente maneiras de sair do caos em que mergulharam o mundo. Trump queria evitar uma “guerra sem fim” como as invasões norte-americanas do Afeganistão e do Iraque, que duraram uma geração. Mas, apesar de todo o poder de fogo assassino que desencadearam contra o Irã, os belicistas imperialistas e sionistas só conseguiram provocar a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história. A razão pela qual isso ainda não levou a um colapso do mercado é que os poderosos de Wall Street parecem acreditar em contos de fadas trumpianos sobre “negociações de paz” inexistentes. A “estratégia de saída” de Trump parece ser orquestrar um ataque aéreo/terrestre apocalíptico.
Para os liberais que acreditam na ficção do “direito internacional”, a atual guerra contra o Irã (assim como a de junho passado) é uma das ações mais flagrantemente ilegais na longa história do gangsterismo ocidental contra a Ásia, a África e a América Latina. Tudo começou em 28 de fevereiro, com o assassinato, por um ataque aéreo israelense, do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Kamenei, um importante clérigo do ramo xiita do Islã, juntamente com vários de seus familiares. Horas depois, um ataque duplo com dois mísseis de cruzeiro astadounidenses atingiu uma escola primária na cidade de Minab, no sul do Irã, matando pelo menos 175 pessoas, mais de 100 delas crianças. Trata-se de um crime de guerra hediondo sob qualquer perspectiva, e o assassinato de chefes de estado patrocinado por outro estado é considerado uma violação da soberania e do direito internacional humanitário. Mas, é claro, como toda a guerra não provocada dos EUA e Israel foi uma violação massiva da soberania iraniana, isso apenas demonstra, mais uma vez, que o direito internacional é um mito.

Crime de guerra EUA/Israel. Pelo menos 175 pessoas, a maioria crianças, foram mortas quando uma escola feminina em Minab, no Irã, foi atingida por um ataque aéreo durante a guerra imperialista/sionista contra o Irã. (Foto: Agência de Notícias Mehr)
Poucas horas após o ataque de 28 de fevereiro, a Liga pela Quarta Internacional emitiu uma declaração convocando a “Defender o Irã – Derrotar a Guerra EUA/Israel!”. Diante do ataque descarado do genocida líder israelense Benjamin Netanyahu e do aspirante a imperador ianque Trump, enfatizamos que é dever de todos os socialistas revolucionários, trabalhadores conscientes de classe e opositores da dominação imperialista mundial estar ao lado do Irã semicolonial contra os agressores imperialistas e sionistas. Conclamamos a ação internacional dos trabalhadores contra a guerra e o bloqueio dos carregamentos de armas dos EUA. Embora não ofereçamos apoio político ao sufocante regime clerical dos aiatolás, chamamos a defender o Irã como parte da luta pela revolução operária. E, como fizemos na “Guerra dos Doze Dias” contra o Irã em junho passado, declaramos: “O Irã tem o direito a armas nucleares para deter terroristas israelenses e norte-americanos armados com armas nucleares”.1
Durante anos, a direita nos EUA e em Israel tem clamado por “bombardear, bombardear o Irã”, mas apesar de toda a propaganda na mídia “mainstream” (burguesa), que é 90% propaganda de guerra sem disfarce, e apesar da postura machista do despistado secretario de guerra americano Pete Hegseth e das invenções do mentiroso-chefe Trump, a guerra não está indo bem para os agressores. Enquanto isso, o Irã conseguiu desencadear a maior de sempre crise de abastecimento de petróleo, atingindo refinerias e usinas de processamento de gás na região do Golfo Pérsico e fechando o estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e gás natural do mundo. Isso não só fez os preços da gasolina dispararem (mais de US$ 8 por galão na Califórnia, perto de US$ 10 na Alemanha), como também causará em breve uma enorme crise alimentar mundial devido à falta de ureia e nitrogênio para fertilizantes, justamente quando começa a época de plantio. A guerra não vai terminar tão cedo e pode se intensificar exponencialmente.
Os militaristas israelenses, depois de seu horripilante genocídio em Gaza, querem usar esta guerra para consolidar seu domínio no Oriente Médio, dando um passo em direção ao seu objetivo de um Grande Israel, do Mar (Mediterrâneo) ao Rio (Eufrates), anexando a Cisjordânia e ocupando o sul do Líbano. O fanfarrão aspirante a ditador na Casa Branca, após sua aventura digna de Piratas do Caribe ao sequestrar o presidente venezuelano Nicolás Maduro e assumir o controle das vendas de petróleo do país, disse que estava apenas fazendo uma pequena “excursão” no Golfo Pérsico. A mal planejada e sangrenta aventura EUA/Israel pode facilmente se voltar contra eles. Mas, diante da derrota, os sionistas fanáticos podem ser tentados a usar seu arsenal nuclear, e o volátil Trump está se preparando para desferir um “golpe de nocaute” no Irã, que tem sido sua obsessão por décadas. Contudo, não se pode nocautear um país de 90 milhões de habitantes com um único bombardeio espetacular.
O mundo está no fio da faca. Os governantes israelenses ficariam satisfeitos em ver o Irã se desintegrar e entrar em colapso econômico. Mas se Donald Trump concretizasse alguma de suas múltiplas ameaças (destruir o sistema de energia elétrica do Irã, assumir o controle de seu petróleo, confiscar suas reservas de urânio enriquecido e desbloquear militarmente o Estreito de Ormuz), tudo poderia explodir dramaticamente. Isso poderia forçar os aliados do Irã, Rússia e China, a intervir de forma mais direita, em vez de apenas fornecer informações (sinais de satélite para direcionamento de alvos), tecnologia (sistemas de radar avançados) e quantidades limitadas de armamento (drones avançados, mísseis antinavio). A guerra com o Irã, ainda mais do que a guerra por procuração imperialista da OTAN contra a Rússia por causa da Ucrânia, tem o potencial de desencadear as escaramuças iniciais de uma terceira guerra mundial. Afinal, a China, um estado operário burocraticamente deformado e receptora de 90% das exportações de petróleo do Irã, é o alvo final.
Desde o início, uma clara maioria da população dos EUA (59% nas pesquisas de opinião) se opôs à guerra com o Irã, um número que só tem aumentado. Três quartos (74%), incluindo a maioria (52%) dos republicanos, se opõem ao envio de tropas terrestres para o Irã.2 No entanto, enquanto escrevemos, duas unidades expedicionárias dos fuzileiros navais e o estado-maior da 82ª Divisão Aerotransportada do Exército estão enviando infantaria para a zona de guerra. Os democratas reclamam que Trump não especificou seus objetivos de guerra e invocam a Lei de Poderes de Guerra (que os presidentes democratas Clinton, Obama e Biden ignoraram) para envolver o Congresso. Embora, não se opunham diretamente à guerra (e o jornal liberal New York. Times afirma que “poderia” apoiar uma guerra). É por isso que não houve grandes protestos contra a guerra com o Irã, já que a esquerda oportunista está sempre buscando construir um movimento antiguerra colaboracionista de classe, uma “frente popular”, juntamente com os democratas “pacifistas”.
Mais do que nunca, a situação clama pela liderança de um partido genuinamente comunista para defender o Irã em base classista contra os agressores imperialistas/sionistas e para mobilizar ações operárias poderosas contra a guerra, como parte da luta pela revolução socialista internacional – a única maneira de pôr fim ao imperialismo e às suas guerras intermináveis.
A guerra de Trump contra o Irã atolou em areia movediça.
Por parte dos governantes dos EUA e de Israel, esta guerra está sendo travada sem a hipocrisia habitual sobre “direitos humanos” e “democracia” com a qual os imperialistas ocidentais disfarçam suas guerras de dominação desde a Segunda Guerra Mundial. Na Conferência de Segurança de Munique, em 14 de fevereiro, duas semanas antes do início da guerra contra o Irã, o secretário de estado norte-americano, Marco Rubio, proferiu um hino de louvor aos “grandes impérios ocidentais” e à “civilização ocidental” baseada na “fé cristã”, acompanhado de vitupérios xenófobos contra a “migração em massa”. A Casa Branca se deleita com a dominação, divulgando propaganda de guerra com imagens de videogames misturadas a cenas de destruição do Irã. Respondendo às críticas ao bombardeio de uma usina de dessalinização de água em Irã, Trump disse sobre os iranianos: “Eles estão entre as pessoas mais perversas que já existiram na Terra. Eles decapitam bebês. Eles cortam mulheres ao meio”, reciclando algumas das mentiras contra os palestinos usadas para justificar o genocídio sionista em Gaza.
Essa retórica racista, proferida em declarações a bordo do Air Force One, incita tweets e declarações islamofóbicas de congressistas republicanos apoiadores do MAGA (Make America Great Again) e uma onda de islamofobia nas redes sociais. Mas, é claro, são os EUA que estão massacrando meninas e meninos em uma escola iraniana, e é a “Assassinato S.A.” israelense que fez dos assassinatos um pilar central da política de estado. Segundo uma estimativa, o estado sionista realizou mais de 2.700 assassinatos nas primeiras sete décadas de sua existência, muito mais do que qualquer outro estado “ocidental”.3 Israel tem como alvo específico cientistas nucleares iranianos, matando pelo menos 19, incluindo três em ataques aéreos em junho de 2025 e na guerra atual. O resultado previsível foi gerar repulsa em massa no Irã contra os agressores.
Os líderes e estrategistas militares dos EUA e de Israel estavam convencidos de que, ao assassinar Khamenei, provocariam uma revolta das massas iranianas, ávidas por se libertar do regime teocrático e opressivo dos aiatolás. (Supostamente, essa linha de argumentação foi defendida pelo chefe do Mossad, a agência de inteligência externa israelense.) Nada disso aconteceu. Houve alguns vídeos de pequenos grupos torcendo na noite em que a guerra começou, 28 de fevereiro, e depois disso, nada. Em vez disso, no dia seguinte, multidões enormes saíram às ruas em todo o Irã para lamentar a morte do aiatolá, muitas segurando fotos dele em meio a lágrimas enquanto gritavam “Morte à América!” e “Morte a Israel!”. Um olhar para as fotos das dezenas de milhares de pessoas vestidas de preto, aglomeradas na Praça Engelab, em Teerã, deixava claro que a República Islâmica ainda contava com um fervoroso apoio popular, de modo que, juntamente com seu aparato repressivo implacável, não poderia ser derrubada simplesmente por “decapitação”.

Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em 1º de março em Teerã (acima) e em todo o Irã para lamentar o assassinato do aiatolá Khamenei, líder muçulmano xiita e chefe de estado, cometido por Israel no dia anterior. (Foto: Majid Saeedi / Getty Images)
Nos dias que se seguiram, os bombardeios desenfreados dos EUA e de Israel continuaram a atingir a capital iraniana e outras grandes cidades. Embora os EUA afirmem ter atingido 8.000 “alvos militares”, é evidente que atingiram muitas áreas residenciais. Quando os israelenses “eliminaram” o líder de fato do Irã, o chefe de segurança Ari Larijani, em 17 de março, atingiram um bairro inteiro. Um ataque entre 7 e 8 de março contra um depósito de petróleo e uma refinaria nos arredores da cidade cobriu Teerã com uma chuva negra tóxica. Enquanto isso, os bombardeios danificaram diversas joias culturais do Irã e Patrimônios Mundiais da UNESCO, incluindo a Mesquita Jameh, com seus azulejos azuis, em Isfahan, e o Palácio Golestan, em Teerã, sede da dinastia Qajjar. Como era de se esperar, houve um endurecimento do sentimento nacionalista iraniano diante dos invasores imperialistas e sionistas, empurrando a população para os braços do regime.
O Líder Supremo do culto MAGA e o aspirante a Rei de Israel se vangloriam de seu poderio militar. Em 6 de março, Trump disse sobre o Irã: “O exército deles acabou. A marinha deles acabou. As comunicações deles acabaram. Os líderes deles acabaram. Dois grupos de líderes deles acabaram — agora só resta o terceiro. A Força Aérea deles foi completamente dizimada.” Alguns dias depois, ele acrescentou: “Eles não têm nenhum sistema antiaéreo. Não têm radar”, resumindo: “Nossas forças armadas são as melhores. São as mais poderosas do mundo, e eles estão atacando-os com muita força.” (Isso faz lembrar da declaração da candidata democrata à presidência, Kamala Harris, durante sua campanha de 2024: “Garantirei que os Estados Unidos sempre tenham a força de combate mais forte e letal do mundo.”) Muito disso pode ser verdade, embora ainda veremos quanto ao sistema antiaéreo e ao radar, já que em 19 de março um bombardeiro “furtivo” F-35 dos EUA foi atingido por fogo iraniano. Muitos dos ataques dos EUA foram realizados com mísseis de longo alcance disparados de muito além do espaço aéreo iraniano. Mas o Irã respondeu de forma assimétrica e contundente, com medidas militares que deixaram Washington e Tel Aviv em estado de pânico.
Inicialmente, a Guarda Revolucionária Islâmica (GRI) lançou um número enorme de mísseis e drones (mais de 1.200 por dia), forçando os EUA e Israel a dispararem grande parte de seus mísseis interceptores disponíveis, que são muito caros. O fato de o número de lançamentos iranianos ter caído para níveis muito mais baixos (30 a 40 por dia) não significa que seus mísseis ou veículos de lançamento tenham sido destruídos em sua maioria, mas sim que eles estão em um nível sustentável para travar uma guerra prolongada. Além disso, nesse primeiro ataque, os iranianos conseguiram atingir as bases de radar vitais para os sistemas de defesa antimísseis balísticos THAAD (Terminal High Altitude Area Defense) dos EUA nos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Jordânia. O Irã também atingiu a maioria das bases militares americanas na região do Golfo Pérsico, de modo que hoje, “muitas das 13 bases militares na região usadas por tropas americanas estão praticamente inabitáveis” (New York Times, 26 de março).
Là se vai com as alegações simplistas de Trump de que os mísseis iranianos são imprecisos. Vídeos online mostram que eles atingiram alvos com precisão cirúrgica. Além disso, para abater enxames de drones (que custam cerca de US$ 30.000 cada), os EUA e Israel utilizam mísseis interceptores israelenses “David’s Sling” (US$ 1 milhão cada), interceptores israelenses Arrow 2 e 3 (US$ 3 milhões cada), interceptores Patriot PAC-3 (de US$ 3,7 a US$ 7 milhões cada) e interceptores THAAD (US$ 12,6 milhões cada). Uma solução pouco económica. Em 21 de março, o Irã atacou duas cidades próximas à instalação de armas nucleares de Israel em Dimona com seu míssil hipersônico Fattah-2, que nem os EUA nem Israel são capazes de interceptar. E em 24 de março, o Instituto Real de Serviços Unidos Britânico (RUSI) relatou que os atacantes usaram 11.000 munições (avaliadas em US$ 26 bilhões) nos primeiros 16 dias da guerra, e que Israel ficará sem a maior parte de seus mísseis em algum momento entre três dias (!) e três semanas.4
Um avião de vigilância por radar
E-3 AWACS dos EUA foi destruído em um ataque de precisão por
um míssil iraniano contra uma base aérea saudita , em 27 de
março. O Irã destruiu sofisticadas instalações de radar
terrestre dos EUA em três países no primeiro dia da guerra.
(Foto: TheIntelFrog)Mas muito mais impactante foi o golpe duplo do Irã: os ataques a instalações de petróleo e gás e a proibição da passagem de qualquer embarcação, exceto as aliadas, pelo Estreito de Ormuz. Claramente, e segundo a própria admissão do falastrão Hegseth, a Casa Branca e o Pentágono não previram isso, pelo menos não tão cedo. Quando Israel, em uma grande escalada, atacou o campo de gás natural de Pars do Sul, do qual depende a maior parte da geração de energia elétrica do Irã, a GRI atacou a maior planta de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, deixando-a fora de operação por pelo menos cinco anos. O Irã já atingiu uma refinaria no Kuwait e poderia facilmente fazer o mesmo com diversas outras instalações no Golfo. E, ao limitar o trânsito pelo gargalo de Ormuz, reduziu o transporte marítimo em mais de 90%, levando a um déficit no fornecimento de petróleo de pelo menos 11 milhões de barris por dia, ou 10% do total no mundo inteiro, o que quase inevitavelmente levará em breve a uma gigantesca crise econômica mundial.
Os preços do petróleo já subiram mais de 50%, chegando a mais de US$ 100 o barril, enquanto os preços do GNL e do querosene de aviação dobraram. Especialistas do mercado dizem que o petróleo a US$ 150 seria “catastrófico”, mas se o atual corte persistir, ele poderá facilmente chegar a US$ 200 o barril. Economistas já estão detalhando o que isso poderia significar para o abastecimento de alimentos na África, onde a falta de fertilizantes poderia levar a uma fome generalizada em todo o continente. O fornecimento de medicamentos genéricos da Índia seria praticamente interrompido. Haveria um aumento acentuado da inflação nos países capitalistas avançados e as taxas de juros subiriam (como já estão subindo). Isso poderia significar a falência de muitas grandes empresas de investimento e de capital privado que se endividaram pesadamente (US$ 200 bilhões nos últimos dois anos) para financiar centros de dados de inteligência artificial (IA) que consomem vorazmente energia. A “arma energética” do Irã é extremamente poderosa.
Enquanto Trump intensifica suas ações,lute pela revolução dos trabalhadores!
O primeiro-ministro israelense, Netanyahu, vem pressionando por uma guerra total contra o Irã desde a derrubada do regime sírio de Bashar al-Assad em dezembro de 2024 por terroristas islâmicos sunitas apoiados pela Turquia, resultado do assassinato, dois meses antes, pelo estado sionista, da liderança do movimento islâmico xiita Hezbollah no Líbano. Muito se falou sobre a admissão de Marco Rubio de que Israel convenceu Trump a ir para a guerra. (Rubio retratou-se dessa declaração claramente verdadeira quando isolacionistas da base MAGA de Trump se opuseram a lutar na “guerra de Israel”.) Mas tanto os líderes estadounidenses quanto os israelenses acreditavam que estavam ganhando e que seria uma vitória fácil, que a República Islâmica estava desgastada (como indicariam os protestos de janeiro de 2026). Trump disse ao New York Times (1º de março) que a guerra com o Irã duraria “de quatro a cinco semanas”, que “não seria difícil” e que “o que fizemos na Venezuela” era “o cenário perfeito”. Não foi o que aconteceu.
Em uma mensagem de vídeo em 28 de fevereiro, Trump disse aos iranianos: “Bombas cairão em todos os lugares e, quando terminarmos, assumam o controle do seu governo”. Após seu apelo por uma mudança de regime ter fracassado, ele exigiu a “RENDIÇÃO INCONDICIONAL” do Irã. (A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, “esclareceu” que isso ocorreria quando Trump, “como comandante-em-chefe das Forças Armadas dos EUA, determinar” que o Irã está “em posição de rendição incondicional”). Como isso não levou a nada, ultimamente ele tem insistido em um suposto “plano de paz” de 15 pontos, que equivaleria à rendição. Quando os líderes iranianos disseram que não estavam interessados em negociações e que não havia conversas em andamento com os EUA, Trump respondeu: “É claro que eles estão negociando. Eles foram aniquilados”. Ele não consegue compreender um regime ou exército ideologicamente comprometido que lutaria até o fim.
As oscilações de Trump atingiu proporções ridículas. No sábado, 21 de março, ele emitiu um ultimato dizendo que o Irã tinha “48 horas” para abrir o Estreito de Ormuz ou ele ordenaria o bombardeio de usinas de energia iranianas. Porta-vozes iranianos disseram que, nesse caso, bombardeariam usinas de energia e dessalinização nos países do Golfo aliados dos EUA e de Israel. Então, a poucas horas do prazo final, Trump disse que estava estendendo o prazo por cinco dias porque “negociações sérias” estavam em andamento. O presidente do parlamento iraniano chamou isso de “notícia falsa” e fontes em Teerã disseram que certamente não conversariam com os enviados de Trump, Steve Witikoff e seu genro Jared Kushner, os dois vigaristas que fingiam estar negociando enquanto Trump se preparava para lançar a guerra. Então, conforme o novo prazo se aproximava e as bolsas de valores despencavam, Trump anunciou que estava estendendo o prazo por mais dez dias, até 6 de abril.
Era, mais uma vez, hora de “TACO”, brincaram os figurões de Wall Street, usando a sigla para “Trump Always Chickens Out” (Trump Sempre Acovarda), cunhada após suas draconianas tarifas do Dia da Libertação, que subiam e desciam, com prazos definidos e cancelados conforme os caprichos do presidente americano. Esses caprichos podiam ser desencadeados por ofensas percebidas ou pelas vicissitudes do “Sr. Mercado”, a personificação do S&P 500, Dow Jones e outros índices de confiança do investidor, cunhados por Yves Smith e seu informativo (e frequentemente perspicaz) site, nakedcapitalism.com. Para o magnata imobiliário Trump, tudo se resume a lucro, propriedades e engrandecimento pessoal. (Além de emitir uma moeda comemorativa de ouro com sua imagem na frente e no verso, sua assinatura estará em todas as cédulas norte-americanas.) Certamente é notável que ele repetidamente lance suas invasões, guerras e ultimatos (Venezuela, Irã…) após o fechamento do mercado em Nova York na sexta-feira à noite, e suas desistências antes da abertura dos mercados na segunda-feira.
A fórmula de Trump para a “arte do roubo” é simplesmente intimidar a todos até a submissão. Certamente funcionou com os “aliados” imperialistas europeus, que foram convencidos a abrir mão do petróleo e gás russos baratos, que eram a pedra fundamental da indústria pesada alemã, levando ao colapso de setores inteiros da economia da Alemanha. Agora, depois de suportar as acusações de covardia do presidente americano por não participar de sua guerra contra o Irã, os europeus foram coagidos a declarar que poderiam se juntar ao patrulhamento do Estreito assim que os combates terminarem. Trump, o defensor do “América Primeiro”, que a princípio disse que os EUA e Israel poderiam agir sozinhos e nem sequer alertou seus amigos mais próximos na Europa, como a primeira-ministra fascista italiana Giorgia Meloni, sobre o iminente ataque ao Irã, em seguida condenou os europeus e a OTAN por não se comprometerem a participar da abertura à força do Estreito de Ormuz e, depois, declarou que, de qualquer forma, não precisava da ajuda deles O objetivo era torná-los cúmplices dessa empreitada criminosa.
Uma razão não declarada para a recuada de Trump em seu ultimato de 48 horas/cinco dias/dez dias para o Irã abrir o Estreito é que levaria esse tempo para as forças terrestres norte-americanas designadas para realizar o ataque – a 11ª e a 31ª Unidades Expedicionárias de Fuzileiros Navais e a 82ª Divisão Aerotransportada – chegarem ao teatro de operações. Um possível alvo é a instalação de exportação de petróleo iraniana na Ilha de Kharg, que Trump deseja tomar desde pelo menos uma entrevista de 1988 ao jornal The Guardian, de Londres . Isso levou a uma série de artigos em praticamente todos os principais jornais sobre o que seria necessário para conquistar e manter a ilha, que fica a apenas 24 quilômetros da costa, ao alcance da artilharia, mísseis de curto alcance ou drones iranianos, sem nenhum lugar para as tropas se esconderem. Todos eles citaram a desastrosa batalha de Galípoli de 1915 contra a Turquia na Primeira Guerra Mundial, quando tropas australianas e neozelandesas foram dizimadas ao tentar tomar o controle da estreita entrada dos Dardanelos, perto de Istambul.
Até mesmo o Instituto Naval dos EUA se manifestou com um artigo sobre “As Lições Incômodas da Batalha de Galípoli para o Estreito de Ormuz”, que poderia ser resumido como “Já estivemos lá, já fizemos isso, nunca mais”. O consenso era de que tentar manter a Ilha de Kharg seria uma missão suicida, e a atenção se voltou para outras ilhas próximas à entrada do Estreito de Ormuz, mas todas apresentam problemas semelhantes. A probabilidade, então, é que os EUA e Israel lancem uma campanha monstruosa de bombardeio “choque e pavor”, declarem ter destruído as forças militares do Irã e deixem para os europeus a tarefa de resolver como navegar pelo Estreito (possivelmente pagando pedágios ao Irã). Se o regime iraniano permanecer no poder, mesmo que enfraquecido, não há como reivindicar o resultado como uma vitória para o Ocidente. Se a República Islâmica cair, transformará a região em um barril de pólvora. Bem-vindos ao atoleiro.
Alguns capitalistas influentes estão ficando alarmados. Uma coisa é desencadear o caos no mercado, levar empresas à falência e sujeitar os trabalhadores a uma inflação crescente com tarifas estratosféricas que não conseguem reindustrializar os EUA. Outra coisa completamente diferente é potencialmente desencadear uma conflagração mundial. O “czar da IA e das criptomoedas” de Trump, o capitalista de risco do Vale do Silício David Sacks, declarou em 14 de março que é hora de “declarar vitória e sair” em vez de intensificar a guerra contra o Irã. Alguns na classe dominante veem o vice-presidente JD Vance (que questionou timidamente a guerra com o Irã) como uma alternativa sensata ao presidente belicista e ao seu chefe de política externa/segurança nacional, Marco Rubio, que defende “deixe Trump ser Trump”. Mas cuidado, enquanto Trump é definitivamente insano, Vance é um ideólogo fascista certificado que transformaria jovens em bucha de canhão e jovens mulheres em fábricas de bebês para substituir os soldados mortos. O impeachment não é a solução.
À esquerda, é impressionante a pouca reação à aventura de Trump no Irã. Com uma guerra profundamente impopular, onde estão as marchas em massa contra a guerra, como as que ocorreram antes da invasão e ocupação do Iraque por George Bush II? Em 15 de fevereiro de 2003, mais de um milhão de pessoas protestavam nas ruas de Roma e Londres, e centenas de milhares em Berlim, Sydney, Melbourne e Nova York. Hoje, há apenas pequenas manifestações com, no máximo, algumas centenas de pessoas aqui e ali. Nem mesmo o Partido para o Socialismo e a Libertação (PSL) e sua Coalizão ANSWER, especializados em manifestações frente-populistas pela paz, convocaram uma mobilização nacional. Em vez disso, o PSL e o restante da esquerda estadunidense estão acompanhando as marchas de 28 de março “Sem Reis”, convocadas por grupos de fachada do Partido Democrata, como o 50501, o Indivisible e o moveon.org. Os mesmos grupos estão promovendo a falsa “greve geral” da coalizão “May Day Strong”, que não se baseia no exercício do poder coletivo dos trabalhadores, mas em ações individuais (“não ir às compras”, faltar ao trabalho por motivo de doença) no dia 1º de maio. Seu verdadeiro objetivo é mobilizar o voto para os democratas em novembro.

Participação de internacionalistas em manifestação em Nova York em 22 de junho de 2025 contra a “guerra de 12 dias” EUA/Israel contra o Irã. (Foto de internacionalistas)
A Liga pela Quarta Internacional e sua seção nos EUA, o Grupo Internacionalista, opõem-se politicamente ao regime islamista no Irã desde a sua fundação. Mantemos a posição da nossa organização predecessora, a Tendência Espartaquista Internacional, de 1979, quando, de forma singular na esquerda, clamamos por “Abaixo o xá, Não a Khomeini”, lutando pela revolução operária no Irã e alertando que a “Revolução Islâmica” era um movimento liderado por reacionários. A vasta maioria da esquerda, tanto no Irã quanto internacionalmente, abraçou o nascente regime islamista, que logo prendeu milhares de esquerdistas e executou centenas. Hoje, a Liga Comunista Internacional, renascida, disfarça-se de continuação da Tendência Espartaquista, mas renuncia a quase tudo o que ela representava, incluindo a linha marxista adotada em 1979, e clama por uma “frente única anti-imperialista” contra o regime dos aiatolás. Como um palestrante afirmou de forma incisiva em um evento educativo do LFI sobre o Irã, em 7 de março, isso equivale a dizer à próxima geração de esquerdistas iranianos para “enfiarem o pescoço na forca” novamente.
Entretanto, grande parte da esquerda iraniana, incluindo o Rahe Kargar (Organização dos Trabalhadores Revolucionários do Irã), com sede na Europa, o partido stalinista Tudeh (Massas) e o Fedayin Popular, de esquerda islâmica, adotaram uma posição de “terceiro campo”, opondo-se igualmente à República Islâmica e aos agressores estrangeiros EUA/Israel. Em contrapartida, uma pequena Célula Socialista Operária de Vanguarda do Khuzistão relata que trabalhadores ocuparam fábricas de petróleo e petroquímicas em Mahshahr, no sul do Irã, erguendo barricadas para defendê-las contra invasores estrangeiros e apoiadores da dinastia Pahlavi, fantoche imperialista. Vários grupos curdos formaram uma coalizão com a esperança de estabelecer uma versão iraniana do governo regional curdo fantoche dos EUA no norte do Iraque, como observamos em nossa declaração de 28 de fevereiro. Mas, tendo sido repetidamente usados e abandonados pelos EUA e Israel, esses grupos relutam em invadir e, em qualquer caso, são bloqueados pelo governo central pró-Irã do Iraque.
No meio da oposição burguesa, muitos dos islamitas “moderados” que se insurgiram em 2009 apoiam o herdeiro da sangrenta dinastia Pahlavi, que busca tomar o poder como um fantoche do imperialismo estadunidense, assim como seu pai foi instalado pelos imperialistas britânicos em 1941 e assumiu o poder absoluto em 1953 em um golpe de estado orquestrado pela CIA. Mas Washington não está encantado com o pretendente Pahlavi, que tem pouco apoio organizado dentro do Irã, e os assassinatos israelenses mataram todas as figuras do regime que o governo Trump considerava o equivalente a Delcy Rodríguez, a colaboradora dos EUA que agora governa a Venezuela. Como Trump disse em 3 de março: “A maioria das pessoas que tínhamos em mente está morta… Agora temos outro grupo. Eles também podem estar mortos, de acordo com relatos. Então, acho que teremos uma terceira onda. Em breve, não conheceremos mais ninguém.” Mas o governo iraniano não está agindo como um regime sem líder.
Nós, trotskistas da Liga pela Quarta Internacional, clamamos pela derrota da guerra imperialista/sionista e pela defesa do Irã por meio da ação operária internacional, lutando pela ascensão dos trabalhadores ao poder. Contra a opressão sionista do povo palestino, defendemos um Estado operário palestino árabe/hebraico em uma federação socialista do Oriente Médio, fundamentado nos poderosos proletariados do Egito, da Turquia e do Irã. A luta contra essa guerra ruinosa é inseparável da luta contra o ataque do regime Trump à população dos EUA, notadamente as deportações em massa e os ataques violentos contra imigrantes e seus apoiadores por parte dos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e da Patrulha de Fronteira, que estão se tornando uma força paramilitar fascista, liderando a campanha para instalar um regime policial bonapartista. A guerra imperialista no exterior invariavelmente caminha lado a lado com a repressão racista “em casa”.
Do Irã e da Palestina à Europa e aos Estados Unidos, a luta deve ser pela revolução operária para derrubar o imperialismo decadente, que reage violentamente enquanto tenta evitar seu colapso. Em 2022, Trump disse sobre a guerra do democrata Biden contra a Rússia por causa da Ucrânia que poderíamos “acabar na Terceira Guerra Mundial e não sobrará nada do nosso planeta” porque “pessoas ignorantes” que governavam o país “não tinham a menor ideia” dos perigos da escalada. O mesmo pode ser dito da guerra do republicano Trump contra o Irã. Mas não se trata apenas dos republicanos: as políticas fundamentais do imperialismo estadunidense têm sido e são bipartidárias, como foi verdade durante toda a Guerra Fria anti-soviética e desde que a contrarrevolução destruiu a União Soviética e os estados operários deformados do Leste Europeu em 1982, e como são hoje na Ucrânia, na Palestina e no Irã. Para combater a escalada rumo à guerra mundial, é crucial, nos EUA, romper com os partidos Democrata e Republicano e construir um partido operário revolucionário baseado no programa autenticamente comunista da Quarta Internacional de Trotsky. ■
- 1. Ver artigo do Internationalist “Defender o Irã – Derrotar a guerra EUA/Israel” (28 d e fevereiro de 2026)
- 2. Pesquisa da Universidade de Quinnipiac, 9 de março.
- 3. A figura é de Ronen Bergman, Rise and Kill First: The Secret of Israel’s Targeted Assassinations (2018).
- 4. Este relatório impressionante, que contradiz frontalmente as alegações dos EUA e de Israel de que não estavam com falta de munição – e que fornece números exatos dos estoques de mísseis pré-guerra e da quantidade disparada pelos EUA, Israel e seus aliados do Golfo – normalmente jamais seria divulgado; os EUA provavelmente tentariam prender qualquer repórter que revelasse informações tão obviamente sensíveis do ponto de vista militar. Ao publicá-lo, o RUSI estava enviando um grito de alarme e uma mensagem ao Pentágono para que “encarasse a guerra com realismo”.

